LogotipoAGyellowblue copy.jpg (20460 bytes)
AssuntoGrave Edições Musicais
Partituras para profissionais e iniciantes
Visite o nosso site!


Música Popular Brasileira para Contrabaixo e Piano

recital apresentado por Ricardo Vasconcellos (contrabaixista) e Francisca Aquino (pianista) na Convenção de 1999 da Sociedade Internacional de Contrabaixistas, em Iowa City, IO - USA

                             Trata-se de repertório bastante original, constituído exclusivamente de temas populares da música brasileira e escrito em formato de música erudita de câmera.
                            Trabalhando a partir de temas de forte apelo popular e percorrendo uma gama enorme de gêneros e ritmos da MPB, os arranjadores procuram explorar os recursos expressivos e técnicos de seus instrumentos, mantendo as características de simplicidade e beleza presentes na nossa música. Por outro lado, o rigor com a forma e a utilização dos padrões de escrita tradicional da música ocidental, garantem uma melhor compreensão do texto e possibilitam o registro do mesmo, tornando essas obras compreensíveis universalmente, o que contribui para a difusão da cultura brasileira.
                             Segue breve comentário sobre cada um dos temas escolhidos para compor este trabalho:

1) Feira de Mangaio (Sivuca/G.Gadelha) - tem suas origens no xaxado, baião e xote nordestinos. Originalmente o cantor se faz acompanhar por acordeão (sanfona) zabumba e triângulo, que é a formação característica dos trios nordestinos. Nomes como Luis Gonzaga, Dominguinhos e o próprio Sivuca, tornaram-se famosos, no Brasil e no exterior, como sanfoneiros virtuosos. O som sustentado, produzido pela utilização do contrabaixo com arco, assemelha-se àquele produzido pelo fole da sanfona ou pela voz humana. O piano, com seu forte caráter percussivo, cria toda a base harmônica e rítmica necesssária. Novas cores e timbres são obtidos quando o piano assume a melodia e o contrabaixo realiza a condução e o acompanhamento.

2) Saudades de Matão (Galati/Torres/Silva) - Valsa de grande beleza e simplicidade, eternizada na voz das legítimas duplas caipiras, tão marcantes na cultura musical brasileira, ao longo desse século. O contrabaixo é explorado em várias de suas possibilidades, como: execução de melodias em 4 diferentes oitavas, utilização de notas duplas e sons harmônicos e, ainda efeitos, como o "ponticello". O piano faz a base para o desenvolvimento da idéia, intervindo melodicamente e criando os contrastes de cor e dinâmica necessários às sucessivas mudanças de registro. Apresenta a forma tradicional do choro brasileiro, herdada do antigo minueto.

3) Conversa de Botequim (Noel Rosa) - samba de breque, de caráter alegre e divertido. Retrata o típico espírito do sambista carioca que, apesar das dificuldades enfrentadas no dia-a-dia, consegue falar de si próprio com humor surpreendente. A melodia é exposta alternadamente pelo contrabaixo e pelo piano, que também se revezam na execução da base rítmica e harmônica. Os pizzicatos em acordes ressaltam o papel do tradicional violão. Frases e "choruses", ao estilo de improvisação jazzística, vão aparecendo, tanto no piano como no contrabaixo, evidenciando a riqueza harmônica da obra.

4) A Felicidade (Tom Jobim/V. de Morais) - Tom Jobim é sinônimo, em todo o mundo, de bossa-nova. Reunindo, no mesmo gênero musical, o legítimo samba brasileiro e a riqueza melódica e harmônica do jazz, nosso ilustre compositor levou a música brasileira aos quatro cantos do mundo. Nessa versão, "A Felicidade" recebe tratamento um pouco mais progressivo, com algumas alterações harmônicas e rítmicas que conferem à obra um caráter fusion/funk. A alternância entre essa nova cor e as características do arranjo original são evidentes. Os trechos com "improvisações" escritas, que sucedem à exposição dos temas, podem ser substituídos pela improvisação ao vivo, a critério dos instrumentistas.

5) Palhaço (Egberto Gismonti) - Considerado um dos maiores representantes da música instrumental brasileira do momento, Gismonti caminha com naturalidade entre a música popular e a erudita, produzindo uma obra de caráter abrangente e moderno. Tanto pode surpreender pela complexidade estrutural e harmônica como pela simplicidade e lirismo de suas melodias. A exposição inicial, bastante contida, é realizada pelo piano solo. Numa atmosfera mais luminosa, o contrabaixo assume a melodia e improvisa sobre uma sucessão de 12 modulações. Após esse ciclo, o piano desenvolve o tema de maneira brilhante e virtuosística. Em seguida, através da superposição de fragmentos melódicos, piano e o contrabaixo fundem-se na re-exposição final.

6) Rosa (Pixinguinha) - Compositor, multi-instrumentista e maestro, Pixinguinha nos deixou uma infinidade de composições - choros, valsas, canções e outros gêneros - de riqueza melódica e harmônica incomparáveis, que vieram a se tornar verdadeiros clássicos da MPB. Com seu grupo "Oito Batutas", já em 1919, revolucionava a interpretação musical, fundindo elementos urbanos e rurais sem qualquer restrição e, ainda, utilizando a formação instrumental hoje conhecida como "regional". "Rosa", valsa-choro de caráter seresteiro, é considerada obra-prima, tanto pela riqueza de sua música quanto de seus versos, que exaltam a figura da mulher. Uma verdadeira declaração de amor!

7) Aquele Abraço (Gilberto Gil) - Um dos movimentos artísticos mais expressivos da música brasileira dos anos 60/70 foi, sem dúvida, a Tropicália. Com caráter de protesto e irreverência, "Aquele Abraço" é um dos sambas mais célebres de Gilberto Gil. Logo na introdução o piano revela as características principais do arranjo: forte marcação rítmica permeada de intervenções e swing ao estilo "blues". O contrabaixo se utiliza do arco, pizzicato, apogiaturas e notas duplas para exposição dos temas. Na parte central, o piano apresenta o tema, costurado por elementos de caráter jazzístico. Ao final, sobre um ostinato mantido pelo piano, o contrabaixo faz um longo solo empregando variações e ritmos repletos de swing e "blue notes".

8) Samambaia (César Camargo Mariano) - Clássico da música instrumental brasileira dos anos 80. O compositor, pianista e também exímio arranjador, alia momentos de rica inventividade melódica à uma harmonia repleta de encadeamentos inesperados e ainda um estilo de acompanhamento inconfundível. A introdução "rapsódica", em intervalos paralelos de décimas entre o piano e o contrabaixo, nem de longe pressupõe o que vem a seguir: dois temas contrastantes sobre uma "levada" rítmica contagiante de bossa nova. A alternância entre piano e contrabaixo na exposição das melodias faz-se até mesmo em pequenos fragmentos, proporcionando o surgimento de outros elementos de cor e ritmo.

9) Cabecinha no Ombro (Paulo Borges) - Detentora de uma popularidade surpreendente, essa valsa singela e romântica, com uma letra enternecedora e cara aos corações dos brasileiros metamorfoseou-se em guarânia pontuada de música incidental. A introdução e alguns de seus trechos nos remetem a "San Vicente", de Mílton Nascimento, enquanto em outros trechos são explorados elementos de "Palhaço", de Egberto Gismonti. A guarânia geralmente reveste-se de espírito vibrante e ligeiro e, se executada em andamento mais vivo, traduz em música a sensação de galope. Momentos de extremo lirismo, como o solo central do piano, formam o elemento contrastante do arranjo que atinge seu clímax na parte final, como um grande coro de vozes.

10) Stone Flower (Tom Jobim) - Tema instrumental baseado na melodia do folclore brasileiro "Na corda da Viola", que também serviu de inspiração a Villa-Lobos em seu Guia Prático p/piano. Tom Jobim utiliza motivos rítmicos extraídos do Maracatú e do Baião para criar uma atmosfera de genuína dança brasileira. O contrabaixo ressalta a importância dos elementos rítmicos através dos sons harmônicos, do golpe "spiccato", do arco "col' legno" e do próprio "pizzicato". O piano explora com frequência o uso de acordes em quintas paralelas na região grave, em um ostinato rítmico sobre o qual são contrapostas as melodias, de caráter ora lírico, ora percussivo.

11) Gente Humilde (Garoto/Vinícius de Morais/Chico Buarque) - Canção de melodia e poesia plenas de simplicidade e beleza. Como uma típica ária clássica, o contrabaixo expõe o tema em forma de recitativo, enquanto o piano, discretamente, harmoniza e conduz. Na parte central, mais movimentada e de caráter lírico, o piano executa um grande solo, acompanhado pelo contrabaixo em "walking bass". A reexposição da melodia em região mais aguda, com acompanhamento ritmicamente mais cadenciado, traz de volta o caráter recitativo, desta vez porém de maneira menos intimista e melancólica.

12) O Trenzinho do Caipira (Heitor Villa-Lobos) - Sem dúvida, se alguém foi capaz de mesclar a riqueza dos elementos folclóricos com a técnica apurada de música erudita, esse alguém foi Villa-Lobos. Do constante mergulho em suas obras sempre emergimos mais capacitados para esse trabalho e com a visão clara e lúcida de sua grande dedicação ao resgate e preservação dos temas folclóricos brasileiros, tirando-os do esquecimento e impedindo o seu desaparecimento no tempo. A inclusão do compositor nessa coletânea, homenagem justa e merecida, justifica-se pelo caráter de sua obra, que sustenta toda a nossa linha de pensamento e forma a base de toda a nossa argumentação. "O Trenzinho do Caipira", originalmente escrito para Orquestra Sinfônica, descreve uma viagem de trem pelo interior do Brasil, desde a partida até a chegada ao seu destino. A melodia é construída de maneira tão simples que utiliza apenas as 7 notas da escala maior, porém a maneira com que Villa-Lobos elabora a obra como um todo, sugerindo o movimento e os sons característicos de um trem , revela genialidade e criatividade excepcionais no manejo dos recursos orquestrais. (Observa-se por exemplo que, mesmo com o tempo mantido constante do início ao final da peça, a notação musical é suficiente para expressar toda a sensação de aceleração/ desaceleração). O arranjo para contrabaixo e piano, na medida do possível, procura expressar com fidelidade as intenções do autor.